Guerra do Paraguai: identidades, lealdades e conflitos

O processo de formação dos Estados Nacionais no Prata foi marcado por guerras civis e internacionais que conformaram as estratégias de formação nacional paraguaia, uruguaia e argentina. A Guerra do Paraguai foi o maior conflito entre estados das Américas e um evento definitivo no processo de centralização política da região. Durante cinco anos e sete meses a contenda mobilizou homens, mulheres e recursos em volumes até então inéditos na bacia do Prata. As causas do conflito relacionam-se às mudanças na estrutura regional de poder. Durante os anos de 1860 os paraguaios sentiram-se ameaçados por reconfigurações nos territórios vizinhos. Elementos mais conservadores, os Blancos uruguaios e os Federalistas argentinos estavam perdendo espaço para elementos urbanos e liberais, uma influência centralizadora comandada por elites situadas nas cidades portuárias. Essas mudanças levaram a conflitos que terminaram na decisão do presidente paraguaio, Francisco Solano López, de ir à guerra em resposta à intervenção brasileira no Uruguai, rompendo com décadas de neutralidade na política externa daquela república. Posteriormente López invadiu territórios brasileiros e argentinos num esforço desesperado para auxiliar os aliados Blancos. As etapas seguintes do conflito seriam devastadoras.
Essa movimentação ocorreu num cenário de Estados nações recém-unificados ou em processo de unificação, impactando regiões e populações cujas lealdades a essas unidades políticas ainda não se encontravam consolidadas, incidindo contra identidades basicamente locais e algumas vezes transnacionais. Tais ações geraram resistências aos esforços bélicos que muitas vezes ameaçaram o sucesso da mobilização. Elas também geraram manifestações de patriotismo, cujos sentidos ainda não foram suficientemente estudados. Entre as várias manifestações levantadas pela Guerra chama à atenção a cobertura dispensada pela imprensa nos quatro países envolvidos, seja de forma a estimular o patriotismo nascente, seja na função de crítica aos esforços empreendidos por governos e indivíduos.
A Guerra da Tríplice Aliança associa-se a diversos conflitos simultâneos, configurando uma crise federal hemisférica com manifestações semelhantes nos Estados Unidos, México e França, configurando o que a historiografia considera como a Sangrenta Década de 1860. A Guerra Civil Americana, a Guerra da Reforma no México e a Guerra do Paraguai no Rio da Prata permitiram aos grupos operando a partir de regiões mais orientadas para o mercado (e mais institucionalizadas politicamente) a oportunidade de estender o controle do poder central sobre as periferias territoriais, cristalizando o Estado Nacional como a principal fonte de soberania. Vagarosamente, porém firmemente, as elites comerciais litorâneas expandiram suas concepções sobre a organização nacional para o resto da população através da violência organizada.
Ao longo da campanha houve guerras civis localizadas: guerras dentro da guerra, cujo transcurso realinhou lealdades e identidades na direção dos Estados nacionais vencedores. Esse movimento foi particularmente intenso nos territórios da república Argentina e no Uruguai. O Seminário analisará o impacto do conflito sobre as populações civis da Argentina, Uruguai e Paraguai enfatizando a fluidez das identidades políticas, um legado do período das independências. Para esse fim, darei atenção aos entendimentos de Federalistas argentinos e Blancos uruguaios, pensando-os como portadores de uma proposta alternativa àquela dos Estados nacionais nascentes. Também discutiremos as revoltas antirrecrutamento ocorrendo nas províncias andinas, como parte dessa resistência localista, buscando manifestações e significados nos ataques realizados contra escoltas e cadeias. Por fim, observaremos como a intelectualidade federalista analisou os acontecimentos, focalizando os conceitos utilizados na batalha das ideias que marcou os governos de Bartolomeu Mitre e Domingo Faustino Sarmiento.
O curso dará especial atenção à erosão do federalismo e suas consequências no litoral argentino, na região andina e no Uruguai, utilizando a renovada historiografia internacional sobre o assunto e cotejando-a, quando pertinente, com a literatura sobre a formação dos estados no Prata. Discutiremos as concepções de patriotismo, localismo e federalismo, enfatizando os processos de centralização e territorialização ocorrendo na região durante o período considerado.