Do ipupiara ao zumbi tropical: ficções iconográficas e textuais de monstruosidades

Enquanto categoria alocada em narrativas, a monstruosidade fornece chaves para estudos sobre a relação entre alteridade e imagem, constituinte do que o historiador Michel de Certeau identificou como certa heterologia subsumida nos discursos a respeito dos encontros culturais, como os ocorridos entre os europeus e os nativos do “Novo Mundo”. Visitaremos a tradição histórica do “monstruoso” presente em discursos sobre as/das Américas. No século XIX, o estudo científico do considerado então corpo monstruoso consolidou-se com o termo francês tératologie. Portanto, para melhor esclarecimento da categoria, ampliaremos o olhar para além das Américas, pois estamos em concordância com a crítica literária Mabel Moraña, para quem a monstrificación é uma via de mão dupla, “uma forma de representar assimetricamente os intercâmbios simbólicos que integram e conformam o social”. Dentre outros, abordaremos conceitos e categorias, como: teratologia, colonização, abjeto, regimes de verdade, corporeidade, biopolítica, regimes de visibilidade, fronteira, grotesco, anormalidade, unheimliche, antropomorfismo e fantástico. Desta forma, do ponto de vista teórico e historiográfico, trataremos de um tema relevante para reflexões sobre as crises da contemporaneidade, momento este em que diversos atores políticos criam e recriam monstros de todas as espécies, e para todas as finalidades.